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Um elefante incomoda muita gente



Vivemos tempos estonteantes na luta contra conceitos enraizados. Deparo-me frequentemente com um certo assombro quando sou, de repente, confrontada com pensamentos e formulações que encarava como incontestáveis por serem tão irrefletidos. No entanto, ainda é mais pasmoso ter sido necessário chegar a este século para, finalmente, se começarem a escutar vozes silenciadas por força da arbitrariedade. Depois da queda de uma peça de dominó é imparável a derrubada das restantes peças.


Em vista disto, e a propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa, sinto a compulsão de pensar sobre a influência e o poder que a língua tem sobre estereótipos e realidades. Para além, da função insubstituível da língua na comunicação, é também com a ajuda da língua que são identificados géneros, etnias, castas, raças, culturas, profissões, hierarquias e religiões. São precisamente estas as realidades que em toda a história da humanidade foram e, ainda hoje, continuam a ser alvo de discriminação e intolerância. Indubitavelmente, a língua tem o poder de rotular conceitos e contribuir para reforçar clichés. Despercebidamente, ou até mesmo subrepticiamente, a linguagem semeia preconceitos, cultivando uma ideia de naturalidade para prenoções, sem que estas sejam questionadas.


Refiro-me aqui a apenas algumas manifestações de linguagem preconceituosa, como o androcentrismo. De um modo geral, praticamente todas as línguas são androcêntricas, uma vez que o poder dos homens sobre as mulheres desembocou em sociedades patriarcais. Assim temos o masculino generalizante, que engloba o feminino.

Se numa sala de aula de 200 estudantes, apenas um é homem, fala-se em os alunos. Só dizemos alunas se não houver nenhum aluno presente. Na era da luta contra estereótipos, creio que "alunXs" seria um reflexo do politicamente correto, como já foi introduzido, por exemplo, no alemão.


Outro exemplo bastante subtil é o chamado crescimentismo, intimamente ligado ao grandismo. O ideal da nossa sociedade é crescer, ou seja, ir de um estado menor para um maior, refletindo a ideia de que "grande é bom ou bonito” e implicando que pequeno não o é. Esta é também uma clara referência ao desenvolvimento dos países no norte, por oposição ao países menos desenvolvidos no sul. Talvez até mesmo à alta estatura dos nórdicos, em contraste com os baixinhos nativos do sul.


Apesar de toda a evolução no sentido de igualdade e luta por direitos, ainda há todo um conjunto de expressões que ouvimos desde pequenXs e que não foram questionadas, senão recentemente.


Certamente, a maioria dos falantes não usa expressões preconceituosas com intenção de ofensa, no entanto, isso não é suficiente para inocentar a carga insultuosa, é antes uma questão de decência e respeito pela diversidade. Optar por não usar palavras ofensivas é um ato de bom senso, sem necessidade de cair em exageros.


Assim sendo, devemos optar por não usar judiar e judiaria por resultar da antiga tradição antissemita de origem europeia.

A palavra mulata nasceu pejorativa ainda na época da escravidão, quando o/a filho/a do branco com a negra escrava passou a ser chamado/a de mulato/a, fazendo referência à cria do cavalo com a jumenta - a mula.

É ainda frequente usar a palavra doméstica, que tem origem no termo "domesticar", como se a pessoa precisasse ser "domesticada" para deixar de ser um animal.


Segundo o dicionário, a palavra denegrir é explicada por "tornar-se negro". Se for usada com o sentido de difamar e humilhar alguém, pode ser considerada pejorativa. Aliás, existe uma série de expressões que insinuam a desqualificação do negro ou do seu trabalho, como serviço de preto, lista negra, magia negra, ovelha negra, mercado negro, da cor do pecado, para mencionar apenas algumas.


Na língua portuguesa o sufixo -ismo é usado para identificar doenças. Como sabemos a orientação sexual de uma pessoa não é uma anormalidade e, portanto, o correto é usar a palavra homossexualidade em vez de homossexualismo.


Desde criança aprendemos que cor de pele é aquele lápis entre os tons rosado e bege. Mas é evidente que esse tom não representa a pele de todas as pessoas.


Sob a perspetiva eurocêntrica fala-se também de estampado étnico quando o desenho vem da África ou de outra parte do mundo considerada “exótica”.


Quando a minha mãe me falou pela primeira vez em menstruação, referiu-se à expressão estar de chico, estou segura que ela não fazia ideia da origem, mas é precisamente este tipo de linguagem preconceituosa que se entranha e cria uma associação pejorativa. A origem dessa expressão não está no apelido para o nome Francisco. A palavra “chico”, em Portugal, é sinónimo de porco, resultando em chiqueiro” e na expressão para uma mulher que está menstruada. Dizer que uma mulher está “de chico”, portanto, estigmatiza a menstruação, fazendo alusão a algo sujo, impuro e animal.


Para compreender o peso da expressão mal-amada não é preciso recorrer à etimologia das palavras. Aqui procura-se explicar e criar a necessidade desnecessária de explicar um determinado comportamento de uma mulher pelo facto de não possuir o amor de um homem, enquanto os homens, para o mal ou para o bem, são sempre vistos como senhores do seu próprio temperamento. Esta expressão sugere que a personalidade de uma mulher é determinada pelo amor, aprovação e presença de um homem, ou pela falta de tal relação.


Marido e mulher de alguém também não são palavras igualitárias. As mulheres não são propriedade de ninguém, nem a existência de uma mulher casada deve ser reduzida ao cônjuge.


A linguagem preconceituosa abrange inumeráveis exemplos de -ismos que não são aqui mencionados. Na verdade, tanto a realidade social como a língua são dinâmicas e estão sempre a evoluir, para continuarem a servir como meio de expressão. Obviamente, a linguagem representa o mundo como nós o vemos e não seria possível criar linguagens que fizessem jus a todos os conceitos politicamente corretos. Mas as inovações na língua nascem precisamente do confronto com conceitos desatualizados e das novas formas de encarar o mundo. O que importa é expor as depreciações implícitas nas denominações para consciencializar os falantes de que muitas expressões correntes são preconceituosas e ofensivas.



 

Cristina Lousa Borges

Natural de Lisboa. É membro da BTCC Social e contribui com a Aquarela, trazendo informações e curiosidades do mundo da cultura. É também artesã de joalharia contemporânea.

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