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A epopeia do riso

Por Cristina Lousa Borges



Desde à má reputação à sua glorificação, a história do riso encarou várias jornadas. Calcula-se que o riso remonta há mais de 8 milhões de anos, quando a evolução do homem e do macaco seguiu vias separadas. O riso servia de forma de comunicação, para demonstrar que não havia intenção de agressão. Segundo outra teoria, as crianças terão sido as primeiras criaturas a rir durante o processo de desmame. Acidentalmente, uma mãe que tratava da higiene do pelo do seu filho, terá feito cócegas quando este tentava mamar. Espantada, a mãe terá olhado para o filho, que parou de procurar pelo leite materno, e tentou novamente desviar a atenção através das cócegas. Esta casualidade cedeu, assim, um instrumento eficaz para resolver um problema da natureza. O riso permite transformar o medo da separação em algo divertido e, provavelmente, foi esta a tendência original do riso.


O sentido subjacente ao riso implica, assim, que o ato de rir é desprendido da razão. Não será por acaso, que se diz “muito riso, pouco siso” e que Platão tenha sido o seu censor mais influente, tratando o riso como uma emoção que leva à perda do domínio racional sobre si. Os povos nómadas também acreditavam que o riso devia estar reservado apenas a mulheres e crianças, já que a sua prática era sinónimo de distração, ficando à mercê dos perigos da natureza selvagem e de inimigos. Posteriormente, quando a natureza deixou de constituir uma ameaça e passou a ser símbolo de fertilidade, os povos desenvolveram um certo sentido de felicidade, celebrando festas e carnavais. O riso ajudava a superar os medos e servia de veículo de escárnio e chacota contra a opressão.


Foi na Idade Média que o riso se deparou com a sua maior reprovação por parte da Igreja, pois rir era coisa do diabo ou da bruxa, tendo mesmo sido imposta a proibição de rir. “Ora et labora”, ora e trabalha, não havia espaço para risos. Esta ideia era ainda reforçada pelas representações negativas do riso e humor na Bíblia, em que a maioria das passagens aborda a hostilidade do riso.


As únicas descrições de Deus a rir na Bíblia faziam referência a situações de hostilização. Além disso, Jesus nunca riu, apenas chorou.


Antes do séc. XVIII, a palavra humor não era usada no sentido de comicidade. A vasta maioria dos filósofos considerava que não seria uma perda, se o humor não fizesse parte da vida humana. Os comentários filosóficos sobre o riso e humor abordavam apenas o sentido de desdém e zombaria ou do riso como arma de poder e superioridade.


Sem dúvida, o fenómeno mais curioso na história do riso foi a Epidemia de Risos, ocorrida em 1962 em Tanganica (hoje parte da Tanzânia), que durou quase dois anos, afetou cerca de 1000 jovens, levou ao encerramento de várias escolas e contagiou jovens das regiões vizinhas. Não houve mortes, mas os surtos de riso podiam levar até várias horas e prolongar-se por um período de 16 dias. Por vezes, eram acompanhados de choro, ansiedade, problemas respiratórios e desmaios. Os ataques de riso começaram numa escola missionária com 3 meninas e rapidamente se propagou entre crianças e jovens. Aparentemente, foi uma forma que o corpo encontrou de veicular o stress imposto pela incerteza vivida na época. Tanganica tinha acabado de se tornar independente e os alunos temiam expetativas mais exigentes por parte de professores e pais. Ou seja, um surto de histeria em massa, como forma única de dar resposta a uma situação de stress e demonstrar que algo está errado.


O riso veste-se de várias maneiras. Vivendo no país dos sorrisos, sabemos que estes são um ingrediente crucial na comunicação, para exprimir várias atitudes e sentimentos. Além das posturas mais explícitas do sorriso, por vezes, pode figurar embaraço, menosprezo ou arrogância Após passar por complexas fases de desabono, a gelotologia, que estuda o humor e o riso, bem como os seus efeitos fisiológicos, trouxe à luz os benefícios aportados por umas boas gargalhadas.


 

Cristina Lousa Borges

Natural de Lisboa, Portugal. Reside em Bangkok desde 2015 com a família, 2 filhas de 8 e 12 anos. Tradutora de formação e artesã de joalheria por paixão.



Membro da BTCC Social desde Março de 2021.

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