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Independência, divergência e benquerença



No dia 7 de Setembro, o Brasil celebrou 200 anos de independência de Portugal. Comparavelmente às antigas colónias portuguesas em África, o Brasil conseguiu livrar-se do eufémico lusotropicalismo muito mais cedo. O longo e complexo caminho para a autonomia do Brasil foi bastante peculiar, quase como se fosse um “assunto de família”.


Após a invasão francesa, a família real portuguesa refugiou-se no Brasil e transferiu a sua residência para o Rio de Janeiro, passando a cidade da colónia a ser a capital do Império Português. A partir daí começou a mudar a dinâmica de poder, até D. Pedro, filho do Rei que tinha regressado a Portugal, acabar por dar o grito do Ipiranga e impor a Independência do Brasil.


A atitude de D. Pedro parece quase um ato de rebeldia contra o próprio pai, contra Portugal e as resistências no próprio Brasil, levando a uma luta menos sangrenta, quando comparada com as lutas de independência nos restantes países da América Latina.


Muita história foi escrita desde então, mas até hoje as relações entre brasileirXs e portuguesXs continuam a ser uma espécie de “assunto de família”. Não tem conta o número de portuguesXs com ascendência brasileira e sempre que conheço alguém do Brasil, invariavelmente ouço a frase “Meu pai/avô/bisavô era português”. É certo que, apesar de inúmeras diferenças, o idioma é o mesmo.


No Brasil não existe um medo irracional de vogais (umX portuguêsX diria: “N' t'mos 'm med' irr'cion'l d' v'gais”), já Xs portuguesXs veem uma vogal e não resistem a devorá-la como uma sobremesa. Quando era estudante e partilhava um apartamento em Berlim, com uma amiga brasileira, os pais dela vieram visitá-la.


Eu não entendia a expressão de espanto nos seus rostos cada vez que trocávamos palavras e eles reagiam um pouco à maneira tailandesa, com um sorriso de embaraço e aceno de cabeça. Mais tarde, a minha amiga explicou-me que os pais dela disseram “A tua amiga parece tão simpática, mas a gente não entende nada do que ela fala”.


Habitualmente, torna-se mais fácil Xs portuguesXs entenderem melhor o português do Brasil do que o inverso, provavelmente porque a cultura brasileira sempre esteve presente em Portugal, através das telenovelas, meios de comunicação social e literatura. Já as influências portuguesas no Brasil se refletem, por exemplo, na comida e música.


É impossível quantificar Xs portuguesXs, que foram para o Brasil em busca de uma vida melhor ou por livre opção, nem Xs brasileirXs que se estabelecem em Portugal com os mesmos intuitos.


Ambos contam piadas sobre brasileirXs e “Piada de Português”. Somos indiscutivelmente diferentes, estranhamos mutuamente determinadas atitudes, posturas e formas de socializar e, paradoxalmente, essas divergências também suscitam um encantamento.


Infelizmente, existem muitos estereótipos xenófobos propagados, mas em todo o tempo houve uma certa afinidade entre ambos os países, e até mesmo um sentido de unidade quando em território alheio. Vivendo há vários anos fora de Portugal, é indiscutível que me identifico mais com brasileirXs do que com outras nacionalidades e que Xs brasileirXs, que conheci no estrangeiro, sempre demonstraram muito carinho pelo povo irmão.


Nota: em “X” leia-se “o/a”

 

Cristina Lousa Borges

Natural de Lisboa. É membro da BTCC Social e contribui com a Aquarela, trazendo informações e curiosidades do mundo da cultura. É também artesã de joalharia contemporânea.

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